A Última Festa da Monarquia

Cartão postal do Rio de Janeiro e também do Brasil, a Baia de Guanabara seduz quem a contempla e encanta com sua visão fantástica. Cantada em versos pelos poetas e considerada por muitos como a mais bela baía do mundo, pode ser apreciada do Corcovado mas descortina muitos detalhes para quem se aventura a partir das águas do mar.
Ponto turístico de lindas paisagens, a visita ao palacete é uma verdadeira lição de métodos construtivos, vivências de outras épocas e principalmente os episódios que marcaram a história do palacete e da ilha que também tem acesso para carros.
Conta-se que uma grande quantidade de ratos habitava a ilha, mas o que se sabe é que haviam muitas pedras acinzentadas na praia que se pareciam com ratos.
Tendo necessidade de uma sede alfandegária próxima às docas para fiscalizar os navios e coletar impostos, o Imperador D. Pedro II ordenou a construção do palacete que foi concluído em 1889.
O palacete se tornou famoso pela admirável qualidade de sua construção em pedra talhada e seus vitrôs. A bela ilha em águas límpidas e rodeada de golfinhos dava à construção uma característica marcante e imponente. Com um mosaico de madeiras nobres da flora brasileira, o piso é uma obra de arte de marchetaria formando desenhos variados.
O prédio pintado na cor verde-jade com adornos em cantaria, uma técnica desenvolvida pelos portugueses para o polimento das pedras, deram origem a peças esculpidas com precisão nos detalhes e o brasão dos Bragança. Um relógio alemão de 4 faces, originalmente com iluminação noturna, foi colocado na torre para fornecer a hora local aos navios que ali aportavam.
Alguns interpretaram que o baile fosse uma demonstração de força e tentativa de promover o regime monárquico.
D. Pedro II era um nobre respeitado que concedia audiência para os cidadãos comuns, mas apesar do apoio popular o império enfrentava oposições políticas e perda de prestígio.
Com quase 5.000 convidados, o baile durou até o amanhecer.
A ilha ficou tão cheia que era impossível aos convidados entrarem no palacete ao mesmo tempo; muitos ficaram do lado de fora passeando pela ilha.
Com excesso de ostentação, a ilha foi especialmente decorada com novos móveis e ricamente iluminada.
Historiadores contam que o último baile da monarquia, realizado no Castelo da Ilha Fiscal em 9 de novembro de 1889, aconteceu em homenagem aos oficiais do navio chileno Almirante Cochrane, que visitavam o país. Planejado para receber dois mil convidados, a festa contou com cinco mil pessoas.
Toda a decoração foi feita com as cores do Brasil e do Chile: verde, amarelo, azul e vermelho.
As danças típicas da época animaram a noite, ao som de duas orquestras completas.
Entre elas, estavam a quadrilha, a valsa, a polca, os lanceiros, a mazurca e o galope.
O cardápio da festa foi farto e variado
Foram servidos 15 pratos frios, 11 pratos quentes e 12 tipos de sobremesa, além de 12 mil porções de sorvete de diversos sabores.
As bebidas também foram abundantes:
Foram consumidos 10 mil litros de cerveja e 304 caixas de outras bebidas, como vinhos, champanhe, licores e bebidas de outros países.
Os ingredientes usados na cozinha e a mesa do jantar foram servidos 800 kg de camarão, 1.300 frangos, 500 perus, 64 faisões, 20.000 sanduíches, 14.000 sorvetes, 2.900 pratos de doces,
Com fartas e requintadas comidas e bebidas, o som de duas orquestras preencheram todos os ambientes durante toda a noite.

Como foi o Baile
Em torno de 3 a 5 mil pessoas participaram do baile, que foi até o amanhecer.
A ilha estava tão cheia, que não era possível que todos os convidados entrassem no palacete ao mesmo tempo. Muitos ficaram apenas de fora a circular pela Ilha.
Mas a comida e bebida era farta, requintada e foi servida à todas.
Duas orquestras tocaram por toda a noite enquanto os convidados dançavam e perambulavam pela ilha. O som das orquestras preenchiam todos os ambientes, inclusive ao ar livre, provavelmente e certamente o local onde a maioria dos convidados circulavam e dançavam.
Exposição de objetos sobre o Baile
Existe uma exposição permanente em uma das alas do palacete da Ilha Fiscal, que trata do "Ultimo Baile do Império", onde estão expostas algumas peças de vestuário, objetos decorativos utilizados e inclusive o convite original para festa.
A Ilha foi especialmente decorada e iluminada, vários e inúmeros móveis foram especialmente trazidos para festa, principalmente para decorar e ambientar os salões mais reservados ao Imperador e Princesa Isabel, mas o conforto foi proporcionado por toda a Ilha.
Quanto ao serviço foi luxuoso, e muitos pratos exóticos e requintados foram servidos.
Os convites entregues ao convidados também eram luxuosos e carregavam ostentação desnecessária, mas talvez usual para a época ou para o tipo de evento a que os organizadores se propunham.
As Cenas do Baile e Quadro com Alegoria de Mudança do Regime
A pintura abaixo mostra o baile, com convidados vestidos à rigor e a Ilha iluminada durante a festa que só terminou ao amanhecer.
Pintura retrata o Baile da Ilha Fiscal
Abaixo, a principal parte do quadro de
Francisco Figueiredo, cujo original se encontra no Museu Histórico Nacional, mas uma cópia se encontra emoldurada em um dos salões do palacete da Ilha Fiscal.

O quadro retrata o belo e faustoso baile organizado no local.
Dom Pedro II e a Família Real aparecem à direita, em torno do qual as pessoas se aglutinam, porém deixando um espaço vazio diante dele, e tendo perto, imediatamente ao lado os oficiais do Encouraçado Almirante Cochrane.
D. Pedro é o homem de babas longas, cuja face aparece bem iluminada.
Uma alegoria de transição de regimes
A pintura de Francisco Figueiredo, cujo original está no Museu Histórico Nacional (com cópia exposta no palacete), traz um detalhe curioso.
A obra começou a ser pintada antes da Proclamação da República para registrar o evento. Porém, com a mudança política logo em seguida, o artista incorporou elementos alegóricos no topo da tela: nas nuvens, uma figura feminina inspirada na Marianne (símbolo da República Francesa e do famoso quadro de Delacroix) conduz os republicanos com a bandeira do Brasil. Ao lado, contrapõe-se a representação da Monarquia.
Essa adição permitiu que a obra fosse aceita pelo novo regime sem riscos de rejeição ou censura.
Nunca se tinha visto tanto luxo no Brasil
Se o baile servia como prestígio junto aos políticos e aliados, muitos se sentiram desprestigiados por não terem sido convidados.
Na verdade a monarquia já estava politicamente enfraquecida e faltava apenas um pretexto insignificante perante a opinião pública para colocar um fim no regime monárquico.
Decorridos seis dias após o baile, no dia 15 de Novembro de 1889 foi proclamada a República do Brasil e D. Pedro II exilado junto com sua família.
A farra com dinheiro público marcou a última grande festa da monarquia.
Museu
Em 1913, a Ilha Fiscal foi transferida do Ministério da Fazenda para a Marinha e, atualmente, integra o Complexo Cultural da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha (DPHDM). Em 1999, o espaço foi aberto à visitação pública.
No local, há uma exposição permanente com peças de roupas, jóias, cartolas, bengalas e até o convite original do derradeiro baile do império brasileiro.
Há também mostras temáticas, que revelam a participação militar no avanço científico do país.

O tempo passou e o castelinho, como é conhecido por muitos, que presenciou tantos acontecimentos históricos, é hoje um dos mais belos atrativos turísticos do Rio de Janeiro.
O visitante pode admirar a incrível área externa da ilha, de onde poderá ver por ângulo diferenciado vários pontos do centro do Rio, o Pão de Açúcar e a ponte Rio-Niterói.
Como Visitar
O embarque e a validação do ingresso acontecem exclusivamente no Espaço Cultural da Marinha (Orla Conde / Boulevard Olímpico, s/nº, Praça XV, Centro - Rio de Janeiro).
Atenção: O acesso à ilha é feito apenas pelo transporte oficial disponibilizado pela Marinha (embarcação ou van credenciada). Não é permitido ir por conta própria em veículos particulares ou barcos próprios.
Dica: O seu ingresso dá acesso gratuito às demais atrações e exposições do Espaço Cultural da Marinha, por isso vale a pena reservar cerca de uma hora a mais para passear pelo local antes ou depois do embarque.
Além da visita à Ilha Fiscal, programe mais uma hora, para deliciar-se dos atrativos que estão no Espaço Cultural da Marinha.
Essa visita é cortesia sem nenhum custo para você.
Um detalhe sobre as imagens da época
Curiosidade histórica: Como a tecnologia fotográfica de 1889 exigia muita luz natural e longas exposições, era praticamente impossível registrar os salões internos durante uma festa noturna. Por isso, a pintura de Francisco Figueiredo e as ilustrações dos jornais da época tornaram-se as principais e mais valiosas lembranças visuais desse momento histórico.
Resumo da Postagem
O Evento: O Baile da Ilha Fiscal aconteceu em 9 de novembro de 1889 para homenagear oficiais da Marinha do Chile, tornando-se a última grande festa do Império.
A Grande Curiosidade: O quadro do baile contém uma alegoria da Marianne no topo, inserida após a Proclamação da República para evitar a censura ao artista.
A Matéria em Números: Cerca de 5 mil convidados, 12 mil porções de sorvete, 10 mil litros de cerveja e 800 kg de camarão em uma noite de extrema ostentação.
Como Visitar: Embarque exclusivo no Espaço Cultural da Marinha (Praça XV, RJ), com transporte oficial e acesso gratuito às demais exposições do local.